Horas antes de Estados Unidos e Bélgica entrarem em campo pelas oitavas de final da Copa do Mundo de 2026, nesta segunda-feira em Seattle, o assunto que domina o torneio não está dentro das quatro linhas. A FIFA suspendeu o gancho automático do atacante americano Folarin Balogun, expulso na fase anterior do mata-mata, depois de um telefonema do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ao presidente da entidade, Gianni Infantino. A decisão, sem precedentes na história das Copas, foi mantida mesmo após recurso da federação belga e provocou uma reação duríssima da UEFA, que falou em linha vermelha ultrapassada.
A expulsão que originou o caso
Balogun foi expulso aos 64 minutos da vitória dos Estados Unidos por 2 a 0 sobre a Bósnia e Herzegovina, na fase de 32 do mata-mata, após pisar no tornozelo do defensor Tarik Muharemovic. Segundo a ESPN, o cartão vermelho foi mostrado pelo árbitro brasileiro Rafael Claus depois de revisão no VAR. O lance dividiu opiniões nos Estados Unidos, e parte dos analistas entendia que um cartão amarelo seria suficiente.
Pelo regulamento, o vermelho gera suspensão automática de uma partida. Na prática, isso tiraria o atacante, autor de três gols nesta Copa, do confronto decisivo contra a Bélgica, válido por uma vaga nas quartas de final.
A ligação de Trump e a virada da FIFA
No domingo, o Comitê Disciplinar da FIFA anunciou que “a implementação da suspensão automática do jogador Folarin Balogun fica suspensa por um período probatório de um ano”. Em outras palavras, o atacante está liberado para jogar, e o gancho só será cumprido se ele cometer nova infração de natureza e gravidade semelhantes nos próximos doze meses. A decisão se apoia no Artigo 27 do Código Disciplinar da FIFA, que permite suspender total ou parcialmente a execução de uma punição mediante período de prova.
O anúncio veio depois que Trump telefonou para Infantino pedindo uma revisão do lance. O próprio presidente americano confirmou a conversa publicamente. “Tudo o que eu fiz foi pedir uma revisão. Eu não disse que eles tinham que fazer isso”, afirmou Trump, que classificou a marcação como “horrível”. “Pedi a revisão porque não achei que foi falta. Para mim, foram dois grandes atletas que se chocaram.”
Bélgica recorre e tem apelação rejeitada
A federação belga de futebol (RBFA) se disse “atônita” com a liberação e entrou com recurso para barrar o atacante. O Comitê de Apelação da FIFA, porém, considerou o pedido inadmissível, com o argumento de que a RBFA “não é parte no processo e, portanto, não tem legitimidade para recorrer da decisão”.
Os belgas sustentam que a FIFA violou os artigos 66.4 e 10.5 de suas próprias regras, que preveem o gancho automático de uma partida após cartão vermelho, e afirmam que seguem “investigando todas as opções possíveis”, inclusive na esfera jurídica.
UEFA fala em linha vermelha ultrapassada
A entidade que comanda o futebol europeu divulgou um comunicado em tom raro de confronto com a FIFA. “A decisão de suspender, por um período probatório de um ano, a implementação da suspensão automática de uma partida após o cartão vermelho aplicado ao jogador Folarin Balogun cruzou uma linha vermelha”, afirmou a UEFA, que completou: “Expressamos nossa perplexidade diante de uma decisão sem precedentes, incompreensível e injustificável”.
Técnicos de outras seleções também reagiram. O norueguês Stale Solbakken, cuja equipe eliminou o Brasil e pegará a Inglaterra nas quartas, resumiu o temor geral: “E o próximo cartão vermelho? O que acontece então?”. O alemão Thomas Tuchel, treinador da Inglaterra, questionou se cartões amarelos também poderão ser revertidos por intervenções semelhantes. Do lado americano, o astro Christian Pulisic defendeu o companheiro e disse que a liberação “parece justa”.
Reedição de 2014 em Seattle
Com Balogun confirmado em campo, Estados Unidos e Bélgica se enfrentam nesta segunda-feira, às 21h (horário de Brasília), em Seattle. O duelo reedita as oitavas de final da Copa de 2014, quando os belgas venceram por 2 a 1 na prorrogação, em um jogo no qual o goleiro Tim Howard fez 15 defesas, recorde de uma partida de Copa do Mundo até hoje.
Os anfitriões tentam voltar às quartas de final pela primeira vez desde 2002, embalados pela primeira vitória em mata-matas de Copa em 24 anos. A Bélgica chega depois de uma classificação dramática: perdia por 2 a 0 para Senegal a sete minutos do fim e virou para 3 a 2 na prorrogação.
Fontes: ESPN, Al Jazeera, CBS Sports, Forbes, CNN e The Globe and Mail.
Imagem de destaque: Bryan Berlin / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0).