Alguns clássicos transcendem o esporte e se tornam retratos de uma sociedade. É o caso do Old Firm, que divide Glasgow entre Celtic e Rangers desde o século XIX, e do duelo entre Galatasaray e Fenerbahçe, que parte Istambul ao meio, literalmente entre dois continentes. São rivalidades em que história, identidade e cultura pesam tanto quanto os noventa minutos.
Old Firm: o clássico mais antigo em atividade
O Rangers foi fundado em 1872 e se consolidou como clube ligado à comunidade protestante escocesa. O Celtic nasceu em 1887, criado pelo Irmão Walfrid, religioso que buscava arrecadar fundos para alimentar imigrantes irlandeses pobres do East End de Glasgow, e tornou-se símbolo da comunidade católica de origem irlandesa. O primeiro confronto aconteceu em 1888, e desde então o duelo carrega camadas religiosas, políticas e sociais únicas no futebol mundial.
Os Leões de Lisboa
O ápice esportivo do lado verde e branco veio em 1967, quando o Celtic venceu a Inter de Milão por 2 a 1 na final da Copa dos Campeões, em Lisboa, e se tornou o primeiro clube britânico campeão europeu. O time de Jock Stein, eternizado como Lisbon Lions, tinha todos os jogadores nascidos num raio de poucas dezenas de quilômetros de Glasgow, façanha impensável no futebol globalizado. O Rangers respondeu no plano continental em 1972, com a conquista da Recopa Europeia.
Domínio absoluto na Escócia
Juntos, Celtic e Rangers somam mais de cem títulos do Campeonato Escocês, hegemonia que faz de cada Old Firm uma decisão antecipada. Ibrox e Celtic Park, separados por poucos quilômetros, estão entre os estádios de atmosfera mais intensa da Europa.
Galatasaray x Fenerbahçe: o derby intercontinental
Em Istambul, a rivalidade tem geografia singular: o Galatasaray, fundado em 1905 por estudantes do liceu de mesmo nome, representa o lado europeu do Bósforo, enquanto o Fenerbahçe, criado em 1907 no distrito de Kadıköy, é o orgulho da margem asiática. É o único grande clássico do planeta disputado entre dois continentes dentro da mesma cidade.
A glória europeia de 2000
O Galatasaray escreveu o capítulo mais importante do futebol turco em 2000, ao conquistar a Copa da UEFA diante do Arsenal, nos pênaltis, em Copenhague, com o romeno Gheorghe Hagi como maestro e o brasileiro Taffarel no gol. Foi o primeiro título europeu de um clube da Turquia, coroado meses depois com a Supercopa da UEFA, vencida sobre o Real Madrid com dois gols do brasileiro Jardel.
A bandeira de Souness
Entre os episódios mais lembrados do clássico está o de 1996, quando o técnico escocês Graeme Souness, então no Galatasaray, fincou uma bandeira gigante do clube no gramado do estádio do Fenerbahçe após vencer a final da Copa da Turquia. O gesto entrou para o folclore do futebol e simboliza a temperatura permanente do duelo.
O que esses clássicos têm em comum
- Mais de um século de história ininterrupta e títulos nacionais aos montes.
- Identidades enraizadas em comunidades, bairros e tradições locais.
- Atmosferas de estádio consideradas entre as mais impressionantes do mundo.
- Peso decisivo na disputa de praticamente todos os campeonatos de seus países.
Paixão como patrimônio
Old Firm e clássico turco mostram que o futebol pode condensar a história de uma nação em uma única partida. Quando a paixão se canaliza para as arquibancadas, em cânticos, mosaicos e rituais centenários, esses confrontos se transformam naquilo que têm de melhor: celebrações culturais que renovam, a cada temporada, o sentido de pertencer a um clube.