O futebol tem um vocabulário próprio de gestos. Elástico, chapéu, folha seca, pedalada, bicicleta: cada um desses movimentos tem autor, data aproximada de nascimento e uma linhagem de herdeiros. Conhecer a origem dos grandes dribles é percorrer a história da criatividade no jogo, com forte sotaque brasileiro.
O elástico: do Corinthians para o mundo
O drible mais imitado do futebol brasileiro tem uma história curiosa. O próprio Rivellino, que eternizou o movimento, sempre creditou a invenção a Sérgio Echigo, jogador nipo-brasileiro com quem conviveu nas categorias de base do Corinthians na década de 1960. O gesto consiste em empurrar a bola para fora com a parte externa do pé e trazê-la de volta, num movimento contínuo, com a parte interna. Rivellino aperfeiçoou e popularizou o elástico nos anos 1970, e décadas depois Ronaldo Fenômeno e Ronaldinho Gaúcho o transformaram em marca registrada nos gramados europeus.
A folha seca de Didi
Nem todo gesto histórico é um drible. A folha seca é uma forma de cobrar falta criada por Didi, maestro das Copas de 1958 e 1962. Batida com o peito do pé, a bola sobe com pouca rotação, balança no ar e cai de forma abrupta, como uma folha ao vento. O chute traiçoeiro virou patrimônio nacional e ganhou herdeiros ilustres: Juninho Pernambucano levou a técnica a outro patamar no Lyon, tornando-se referência mundial em cobranças de falta.
Chapéu, lambreta e o atrevimento brasileiro
O chapéu, que consiste em encobrir o adversário com a bola, está ligado a um dos momentos mais célebres das Copas: na final de 1958, contra a Suécia, Pelé, aos 17 anos, matou a bola no peito dentro da área, deu um chapéu no zagueiro e emendou o voleio para marcar. Já a lambreta, em que o jogador prende a bola entre o calcanhar e a panturrilha e a joga por cima da própria cabeça e do marcador, ganhou projeção com Kerlon, revelado pelo Cruzeiro nos anos 2000, e foi executada em alto nível por Neymar.
Gestos e seus criadores ou consagradores
- Elástico: criado por Sérgio Echigo e eternizado por Rivellino
- Folha seca: invenção de Didi nas cobranças de falta
- Bicicleta: consagrada no Brasil por Leônidas da Silva nos anos 1930
- Drible da vaca sem bola: lance de Pelé contra o Uruguai em 1970
- Giro de Cruyff: apresentado pelo holandês na Copa de 1974
- Pedalada: levada ao auge por Robinho e Ronaldo Fenômeno
Bicicleta, pedalada e o giro de Cruyff
A bicicleta tem paternidade disputada: no Pacífico sul-americano, a chilena é atribuída a Ramón Unzaga, no início do século XX, enquanto no Brasil o gesto se consagrou com Leônidas da Silva, o Diamante Negro, artilheiro da Copa de 1938. A pedalada, sucessão de fintas passando a perna por cima da bola, existia há décadas, mas virou febre mundial com Robinho no Santos campeão brasileiro de 2002 e com Ronaldo Fenômeno. Na Europa, o giro de Cruyff nasceu diante das câmeras na Copa de 1974, quando o holandês deixou o sueco Jan Olsson para trás com um toque de calcanhar por trás da própria perna de apoio.
O drible que nem precisou da bola
Talvez o lance mais genial dessa história não tenha terminado em gol. Na semifinal da Copa de 1970, contra o Uruguai, Pelé recebeu lançamento e, sem tocar na bola, deixou que ela passasse por um lado do goleiro Mazurkiewicz enquanto ele próprio corria pelo outro. O chute, depois do drible da vaca sem bola, saiu rente à trave. O lance resume por que esses gestos viraram patrimônio: mais do que recursos técnicos, são expressões de imaginação que atravessam gerações e seguem sendo ensinados, imitados e celebrados em cada campo do mundo.