O futebol que o mundo conhece nasceu de um acordo. Em 1863, representantes de clubes ingleses fundaram a Football Association em Londres e redigiram o primeiro conjunto unificado de regras, com apenas 13 leis. Desde então, o regulamento passou por transformações profundas que criaram o pênalti, o cartão vermelho, as substituições e o árbitro de vídeo. A história das regras é, na prática, a história do próprio jogo.
O caos antes de 1863
Antes da unificação, cada escola e cada clube inglês jogava com normas próprias. Algumas permitiam segurar a bola com as mãos, outras admitiam o uso de força física contra o adversário. A reunião de 1863 separou definitivamente o futebol do rúgbi ao proibir carregar a bola com as mãos. As regras de Sheffield, criadas em 1858, também influenciaram o regulamento, contribuindo com inovações como o escanteio e o tiro livre.
As invenções do século XIX
As décadas seguintes consolidaram elementos hoje indispensáveis. O travessão rígido substituiu uma simples fita entre os postes em 1875. Em 1886 nasceu a International Football Association Board (IFAB), órgão que até hoje é o guardião das regras. Em 1891 chegaram duas novidades decisivas: o pênalti, proposto pelo irlandês William McCrum, e as redes nos gols, que encerraram discussões intermináveis sobre bolas que entravam ou não.
O impedimento e a revolução tática de 1925
Poucas mudanças tiveram impacto tão grande quanto a alteração da regra do impedimento em 1925. Até então, o atacante precisava ter três adversários à sua frente para estar em posição legal. A redução para dois adversários abriu o campo, multiplicou os gols e forçou uma revolução tática: Herbert Chapman, no Arsenal, criou o sistema WM, recuando um meia para a defesa e inaugurando a era dos esquemas modernos.
Marcos da evolução das regras
- 1863: primeiro regulamento unificado, com 13 leis
- 1891: criação do pênalti e adoção das redes
- 1925: nova regra do impedimento, de três para dois defensores
- 1965: liga inglesa autoriza substituições em jogos oficiais
- 1970: estreia dos cartões amarelo e vermelho, na Copa do México
- 1992: proibição de o goleiro pegar com as mãos o recuo de pé
- 2018: uso do VAR em uma Copa do Mundo pela primeira vez
Substituições, cartões e a proteção do espetáculo
Durante quase um século, equipes terminavam partidas com menos jogadores em caso de lesão, pois não havia substituições. A liga inglesa só as autorizou em 1965, inicialmente apenas para atletas machucados. Os cartões amarelo e vermelho estrearam na Copa de 1970, ideia do árbitro inglês Ken Aston, inspirado em um semáforo de Londres. A linguagem visual resolveu um problema real: em 1966, houve casos de jogadores que não entenderam que haviam sido expulsos.
Em 1992, após uma Copa de 1990 marcada pelo excesso de retranca, a IFAB proibiu o goleiro de usar as mãos em recuos feitos com os pés. A medida acelerou o jogo e exigiu goleiros habilidosos com a bola, mudando o perfil da posição. Na mesma década, a vitória passou a valer três pontos nos principais campeonatos, regra adotada pela Copa do Mundo em 1994 para estimular o futebol ofensivo.
A era da tecnologia
O gol não validado de Frank Lampard contra a Alemanha, na Copa de 2010, acelerou a adoção da tecnologia de linha de gol, usada no Mundial de 2014. Quatro anos depois, a Copa da Rússia estreou o árbitro assistente de vídeo, o VAR, que passou a revisar gols, pênaltis, expulsões diretas e casos de identificação errada. As 13 leis de 1863 viraram 17, acompanhadas de centenas de diretrizes. O espírito, porém, permanece: garantir que o jogo mais popular do mundo seja disputado sob as mesmas condições em qualquer lugar do planeta.