Uma expulsão pode mudar o destino de uma Copa do Mundo. Em alguns casos, mudou também a história do próprio futebol, inspirando a criação dos cartões amarelo e vermelho. Das cenas de violência do Chile em 1962 à cabeçada de Zidane na final de 2006, os Mundiais acumulam episódios disciplinares que seguem sendo discutidos décadas depois.
A primeira expulsão da história
Logo na primeira Copa, em 1930, no Uruguai, o capitão peruano Plácido Galindo entrou para a história pelo motivo errado: foi o primeiro jogador expulso em Mundiais, na derrota do Peru por 3 a 1 para a Romênia. Naquela época não existiam cartões: o árbitro simplesmente ordenava que o atleta deixasse o campo.
A Batalha de Santiago e o nascimento dos cartões
Em 2 de junho de 1962, Chile e Itália protagonizaram a partida mais violenta da história das Copas, conhecida como Batalha de Santiago. Provocações da imprensa italiana sobre o país anfitrião incendiaram o clima antes da bola rolar. Em campo, socos, pontapés e três invasões da polícia para apartar os jogadores. O árbitro inglês Ken Aston expulsou os italianos Giorgio Ferrini e Mario David, e o Chile venceu por 2 a 0.
A confusão teve consequência histórica: anos depois, o próprio Ken Aston, refletindo sobre a dificuldade de comunicar punições em jogos internacionais, teve a ideia dos cartões amarelo e vermelho ao parar em um semáforo em Londres. O sistema estreou na Copa de 1970, no México. Curiosamente, nenhum cartão vermelho foi mostrado naquele torneio. O primeiro da história saiu apenas em 1974, na Alemanha: o chileno Carlos Caszely foi expulso na partida contra a Alemanha Ocidental.
Expulsões que marcaram gerações
- 1930: Plácido Galindo (Peru), a primeira expulsão de um Mundial
- 1962: Ferrini e David (Itália), na Batalha de Santiago
- 1974: Carlos Caszely (Chile), o primeiro cartão vermelho da história
- 1994: Leonardo (Brasil), pela cotovelada em Tab Ramos nas oitavas contra os Estados Unidos
- 1998: David Beckham (Inglaterra), após reação contra Diego Simeone nas oitavas
- 2006: Zinédine Zidane (França), pela cabeçada em Materazzi na final
- 2010: Felipe Melo (Brasil), no pisão em Robben nas quartas contra a Holanda
A Batalha de Nuremberg
A Copa de 2006 produziu o jogo com mais cartões da história dos Mundiais. Nas oitavas de final, Portugal venceu a Holanda por 1 a 0, com gol de Maniche, em uma partida em que o árbitro russo Valentin Ivanov distribuiu dezesseis cartões amarelos e quatro vermelhos: Costinha e Deco pelo lado português, Boulahrouz e Van Bronckhorst pelo holandês. O duelo, disputado em Nuremberg, ganhou apelido inspirado na Batalha de Santiago e levou a FIFA a rever a orientação dada aos árbitros no restante do torneio.
Zidane e a cabeçada que encerrou uma carreira
Nenhuma expulsão é mais lembrada do que a de Zinédine Zidane na final de 2006, em Berlim. Aos 34 anos, jogando a última partida da carreira, o francês havia aberto o placar contra a Itália com uma cavadinha de pênalti. Na prorrogação, após troca de palavras com Marco Materazzi, que havia empatado o jogo, Zidane desferiu uma cabeçada no peito do zagueiro e recebeu o vermelho. Sem seu maior craque, a França perdeu o título nos pênaltis. O detalhe amargo: mesmo expulso, Zidane foi eleito o melhor jogador daquela Copa.
Zidane, aliás, já havia sido expulso em 1998, contra a Arábia Saudita, por pisar em um adversário, e cumpriu dois jogos de suspensão antes de brilhar na final contra o Brasil. A trajetória do francês resume a relação das Copas com os cartões: no torneio mais importante do planeta, gênio e descontrole às vezes dividem o mesmo corpo, e um segundo de fúria pode pesar mais do que noventa minutos de talento.