O jogo de abertura de uma Copa do Mundo carrega um peso simbólico que nenhuma outra partida da primeira fase possui. É o momento em que quatro anos de espera terminam, em que o planeta inteiro liga a televisão ao mesmo tempo e em que zebras históricas costumam aparecer. Da estreia em Montevidéu, em 1930, até a surpresa do Catar em 2022, as partidas inaugurais produziram gols eternos, vexames inesquecíveis e mudanças de regulamento.
O primeiro jogo da história das Copas
Em 13 de julho de 1930, no modesto Estádio Pocitos, em Montevidéu, França e México fizeram a primeira partida de uma Copa do Mundo. Os franceses venceram por 4 a 1, e o atacante Lucien Laurent entrou para a eternidade ao marcar, aos 19 minutos, o primeiro gol da história dos Mundiais. Curiosamente, naquele mesmo dia e horário, Estados Unidos e Bélgica também entraram em campo, mas foi o gol de Laurent que ficou registrado como o marco inaugural.
A era em que o campeão abria a Copa
Entre 1974 e 2002, a FIFA adotou uma tradição: o atual campeão mundial fazia o jogo de abertura. A fórmula gerou partidas tensas e resultados constrangedores para os detentores do título. Em 1974, o Brasil tricampeão estreou com um sonolento 0 a 0 contra a Iugoslávia, em Frankfurt.
A abertura de 1990, em Milão, produziu uma das maiores zebras da história: Camarões venceu a Argentina de Maradona por 1 a 0, com gol de François Omam-Biyik, mesmo terminando o jogo com nove jogadores. Doze anos depois, o roteiro se repetiu: em 2002, Senegal, estreante em Copas, bateu a França campeã mundial por 1 a 0, em Seul, com gol de Papa Bouba Diop. Os franceses caíram na primeira fase sem marcar um gol sequer.
A mudança de 2006: o anfitrião assume o palco
A partir da Copa da Alemanha, em 2006, o país-sede passou a fazer a partida inaugural. A estreia da nova regra foi um espetáculo: Alemanha 4 a 2 na Costa Rica, em Munique, com um golaço de Philipp Lahm logo aos seis minutos. Em 2010, o sul-africano Siphiwe Tshabalala abriu o placar contra o México com um chute memorável, no empate por 1 a 1 em Joanesburgo, ao som das vuvuzelas.
Em 2014, o Brasil venceu a Croácia por 3 a 1 na Arena Corinthians, em São Paulo, mas a noite começou com um susto: Marcelo marcou contra, o primeiro gol contra de um anfitrião em aberturas de Copa. Neymar, duas vezes, e Oscar viraram o jogo. Em 2018, a Rússia aplicou 5 a 0 na Arábia Saudita, em Moscou, com show de Denis Cheryshev.
Aberturas que entraram para a história
- 1930: França 4 a 1 México, com o primeiro gol da história, de Lucien Laurent
- 1950: Brasil 4 a 0 México, no Maracanã recém-inaugurado, com dois gols de Ademir
- 1966: Inglaterra 0 a 0 Uruguai, em Wembley, abertura sem gols do futuro campeão
- 1990: Camarões 1 a 0 Argentina, a zebra de Omam-Biyik em Milão
- 2002: Senegal 1 a 0 França, o tropeço do campeão em Seul
- 2014: Brasil 3 a 1 Croácia, com virada comandada por Neymar
Catar 2022: o anfitrião que quebrou um tabu
Em 20 de novembro de 2022, o Catar entrou em campo no Estádio Al Bayt para enfrentar o Equador e escreveu um capítulo indesejado: tornou-se o primeiro país-sede a perder o jogo de abertura de uma Copa. Enner Valencia marcou os dois gols da vitória equatoriana por 2 a 0. Até então, nenhum anfitrião havia sido derrotado na estreia em 21 edições do torneio.
A lição que atravessa quase um século de aberturas é clara: favoritismo não entra em campo. Do 0 a 0 do Brasil em 1974 ao vexame francês de 2002, a partida inaugural sempre foi terreno fértil para surpresas, e é exatamente isso que a torna um dos momentos mais aguardados do calendário do futebol mundial.