A Copa do Mundo é a vitrine definitiva do futebol, e nenhuma narrativa encanta mais o torcedor do que a do garoto desconhecido que sai do torneio como estrela mundial. Aconteceu com um adolescente brasileiro na Suécia, em 1958, e voltou a acontecer com um francês de 19 anos na Rússia, em 2018. Entre um e outro, gerações inteiras de craques usaram o Mundial como rito de passagem.
Pelé, 1958: o padrão de todas as comparações
Aos 17 anos, Pelé chegou à Suécia como reserva e contundido. Saiu de lá como o maior fenômeno da história do esporte. Marcou o gol da vitória sobre o País de Gales nas quartas de final, fez três na semifinal contra a França e mais dois na decisão contra os anfitriões, vencida por 5 a 2. Até hoje é o jogador mais jovem a disputar e a marcar em uma final de Copa. Seis gols em quatro jogos e uma imagem eterna: o garoto chorando no ombro de Gilmar após o apito final.
Dos anos 1960 aos 1990: a tradição continua
Em 1966, na Inglaterra, um jovem Franz Beckenbauer, de 20 anos, marcou quatro gols e chegou à final com a Alemanha Ocidental, anunciando o líbero que redefiniria a posição. Em 1982, na Espanha, o norte-irlandês Norman Whiteside estabeleceu um recorde que permanece de pé: tornou-se o jogador mais jovem a atuar em uma Copa, com 17 anos e 41 dias, superando a marca do próprio Pelé.
A Copa de 1998 apresentou Michael Owen ao mundo. Aos 18 anos, o atacante inglês marcou contra a Argentina, nas oitavas de final, um dos gols mais bonitos da história do torneio: arrancada desde o meio de campo, dois marcadores deixados para trás e finalização precisa. A Inglaterra caiu nos pênaltis, mas Owen virou fenômeno global e, três anos depois, conquistaria a Bola de Ouro.
Mbappé, 2018: o herdeiro de Pelé
Vinte anos depois de Owen, outro adolescente atropelou a Argentina em um mata-mata de Copa. Kylian Mbappé, aos 19 anos, marcou dois gols na vitória francesa por 4 a 3 nas oitavas de final de 2018, em um jogo em que sua velocidade rendeu ainda um pênalti sofrido após arrancada de mais de 60 metros. Na decisão contra a Croácia, vencida por 4 a 2, fez o último gol da França e se tornou o primeiro adolescente a marcar em uma final de Mundial desde Pelé, em 1958. Levou o prêmio de melhor jogador jovem do torneio e saiu da Rússia campeão do mundo.
Os melhores jogadores jovens premiados pela FIFA
Desde 2006, a FIFA premia oficialmente o melhor jogador com até 21 anos de cada Copa. A galeria de vencedores é um retrato de gerações:
- 2006: Lukas Podolski (Alemanha), três gols na campanha do terceiro lugar
- 2010: Thomas Müller (Alemanha), artilheiro do torneio com cinco gols aos 20 anos
- 2014: Paul Pogba (França), motor do meio-campo francês nas quartas de final
- 2018: Kylian Mbappé (França), quatro gols e título mundial aos 19 anos
- 2022: Enzo Fernández (Argentina), campeão do mundo com gol contra o México
O peso de brilhar cedo
Nem toda revelação confirma a promessa: Owen conviveu com lesões que encurtaram seu auge, e tantos outros prodígios de Mundiais se perderam no caminho. Por outro lado, casos como os de Beckenbauer, Müller e Mbappé mostram que a Copa pode ser o primeiro capítulo de carreiras gigantescas. Ronaldo, o Fenômeno, viveu as duas pontas dessa história: integrou a delegação campeã de 1994 aos 17 anos sem entrar em campo e, oito anos depois, foi o artilheiro e herói do penta em 2002. No futebol, brilhar jovem em uma Copa não garante nada, mas muda tudo.