Organizar uma Copa do Mundo é um privilégio que poucos países tiveram mais de uma vez. Até a edição do Catar, em 2022, apenas cinco nações haviam recebido o torneio em duas oportunidades: México, Itália, França, Alemanha e Brasil. Cada uma dessas Copas deixou marcas profundas, de estádios lendários a finais que definiram eras do futebol.
México: o pioneiro da dupla sede
O México foi o primeiro país a sediar duas Copas do Mundo, em 1970 e 1986. A segunda chegou por acaso: a Colômbia, escolhida originalmente, desistiu por dificuldades econômicas, e os mexicanos assumiram o posto. O Estádio Azteca, na Cidade do México, tornou-se o único palco a receber duas finais de Copa: o 4 a 1 do Brasil sobre a Itália em 1970, com o gol antológico de Carlos Alberto, e o 3 a 2 da Argentina sobre a Alemanha Ocidental em 1986.
Foi também no Azteca que Maradona protagonizou, no mesmo jogo contra a Inglaterra, em 1986, a “mão de Deus” e o chamado gol do século. Com a escolha da candidatura conjunta com Estados Unidos e Canadá para 2026, anunciada em 2018, o México se tornou o primeiro país designado para sediar o torneio três vezes.
Itália: do regime fascista às noites mágicas
A Itália recebeu o Mundial de 1934, usado pelo regime de Mussolini como vitrine política, e conquistou o título em casa ao bater a Tchecoslováquia por 2 a 1 na prorrogação. Em 1990, o país viveu as “notti magiche”: o torneio das defesas fechadas e da Alemanha campeã revelou Totò Schillaci, artilheiro com seis gols, e deixou como herança estádios reformados como o San Siro, em Milão, e o Olímpico, em Roma.
França e Alemanha: títulos em casa
A França organizou a Copa de 1938, vencida pela Itália de Vittorio Pozzo, e a de 1998, quando conquistou seu primeiro título mundial ao golear o Brasil por 3 a 0 na final, com dois gols de Zidane. O Stade de France, erguido em Saint-Denis para o torneio, virou símbolo do esporte francês e da geração multicultural de Zidane, Thuram e Henry.
A Alemanha também festejou em casa na primeira oportunidade: em 1974, a Alemanha Ocidental de Beckenbauer e Gerd Müller derrotou a Holanda de Cruyff por 2 a 1 na final de Munique. Em 2006, o país viveu o chamado “conto de verão”, uma festa popular que mudou a imagem do futebol alemão, ainda que o título tenha ficado com a Itália, campeã nos pênaltis sobre a França em Berlim.
As duplas sedes em resumo
- México (1970 e 1986): duas finais no Azteca e os títulos de Brasil e Argentina
- Itália (1934 e 1990): título em casa na primeira, noites mágicas na segunda
- França (1938 e 1998): o bicampeonato italiano e o primeiro título francês
- Alemanha (1974 e 2006): a glória de Beckenbauer e a festa do conto de verão
- Brasil (1950 e 2014): o Maracanazo e o 7 a 1, duas cicatrizes históricas
Brasil: duas Copas, duas feridas
O Brasil é o caso mais dramático entre as duplas sedes. Em 1950, construiu o Maracanã, então o maior estádio do mundo, para coroar uma campanha avassaladora, e viu o Uruguai virar por 2 a 1 na partida decisiva, diante de cerca de 200 mil pessoas, no episódio eternizado como Maracanazo. Em 2014, a história ofereceu outra ferida: a goleada de 7 a 1 sofrida para a Alemanha na semifinal, no Mineirão, a maior derrota da seleção em Copas.
Ainda assim, as duas edições deixaram legados concretos: o Maracanã segue como templo do futebol mundial, e a Copa de 2014 modernizou arenas que hoje recebem as maiores torcidas do país. Sediar um Mundial duas vezes significa carregar para sempre as glórias e as dores que ele produz, e nenhum país sabe disso melhor do que o Brasil.